Atleta transplantado é recordista mundial

Existe vida após um transplante? Conheça a história do bancário que se tornou atleta recordista mundial após enfrentar dois cânceres e um transplante de medula óssea

Alessandra Guimarães

Jornalista e Gestora de Conteúdo

12 artigos


24 de setembro de 2018

Antes de contar a história deste atleta que passou  por um transplante de medula óssea, é importante contextualizar a situação do transplante de órgãos e tecidos no Brasil. Para isso, temos que voltar 50 anos de história.

O primeiro transplante de órgãos no Brasil aconteceu em 1968, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), onde um homem de 23 anos recebeu um novo coração. De lá pra cá, centenas de procedimentos já foram realizados e o Brasil se tornou uma referência em transplantes. Mas, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), mais de 33 mil pessoas ainda esperam pelo telefonema que vai mudar tudo.

A fila de pacientes para o transplante de órgãos é única e leva em conta a gravidade do paciente e critérios regionais. Por exemplo, se um órgão é disponibilizado em Goiás, uma busca por pacientes do mesmo estado ou locais próximos é iniciada. Não havendo um potencial receptor, o órgão fica disponível para pacientes de todo o país.

Os órgãos mais transplantados são coração, fígado, pâncreas, pulmões e rins. De janeiro de 2008 até junho de 2018, mas de 75 mil transplantes de órgãos foram realizados no país. Mas falar sobre transplante de órgãos, geralmente, envolve dois sentimentos: alegria e tristeza. Na maior parte dos casos, os transplantes são feitos a partir de órgãos de pessoas que vieram a falecer. A tragédia de um lado, produz esperança do outro.

Mas nem todo o transplante envolve a morte de quem doa. O transplante de rim, por exemplo, pode ser feito também a partir de um doador vivo. Já o transplante de medula óssea é feito, necessariamente, com o doador em vida. Infelizmente, a falta de informação e conscientização da população sobre o procedimento, faz com que surjam mitos que nada contribuem para quem espera um doador compatível (tire suas dúvidas sobre o transplante de medula óssea)

Mesmo com 4 milhões de pessoas cadastradas no banco de medula óssea, a chance de encontrar um doador compatível é cerca de 1 em 100 mil. Devido a mistura de raças do povo brasileiro, achar a compatibilidade entre um doador voluntário e um paciente ainda é um desafio.

Vida após transplante de medula óssea

A paixão pelo esporte sempre esteve no sangue do Rodrigo Machado (46). Como atleta federado de natação, seu sonho sempre foi participar de uma olimpíada, mas aos 17 anos ele acabou encerrando sua carreira de nadador para seguir outros caminhos. Poucos anos depois, passou em um concurso público e iniciou carreira como bancário. Com isso, as piscinas e o sonho de participar de uma competição ficou no esquecimento.

Em 2012, aos 40 anos, após participar de uma meia maratona (ele nunca deixou de se exercitar), Rodrigo começou a sentir fadiga, cansaço e tontura. Foi internado e, poucos dias depois, recebeu uma notícia difícil de encarar: ele estava com leucemia.

O tratamento incluía quimioterapia e um transplante de medula óssea. No caso do Rodrigo, sua irmã foi a doadora das células, pois ela é 100% compatível com ele (a chance de irmãos serem compatíveis é de apenas 25%). O transplante foi um sucesso e Rodrigo continuou seguindo a vida se pautando em três pilares: fé, alimentação e exercícios físicos.

Mas três anos depois, o bancário descobriu que estava com um tumor raro derivado da leucemia. Por conta do tratamento muito mais agressivo que o anterior, não pode exercer dois dos seus pilares fundamentais. Foi neste momento que a fé era tudo o que ele tinha!

Após meses de tratamento e recuperação, Rodrigo fez uma grande descoberta! Ele ouviu falar sobre uma competição com atletas transplantados, assim, aquele sonho antigo começou a ganhar espaço novamente. “Um ano após a minha alta, procurei a médica que me acompanha e falei que gostaria de participar das olimpíadas dos transplantados. Ela me disse que, se esse era o meu sonho, eu deveria ir”, relembra.

Mesmo longe das piscinas há muitos anos, Rodrigo retomou os treinos para as olimpíadas que aconteceriam em pouco tempo, exatamente oito semanas. Após os dois meses de treino, o atleta foi para a Espanha realizar o grande sonho. Rodrigo era um dos dois mil competidores da World Transplant Games de 2017, uma competição reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, que contempla 16 modalidades esportivas, com representantes de 52 países. “Todos ali estavam comemorando a segunda chance de vida, mas a vontade de ser vitorioso na competição era o sentimento geral, como em qualquer outro evento esportivo”, pondera.

Rodrigo participou de cinco provas da natação. Voltou para casa com duas medalhas de ouro, três de prata e o recorde mundial de uma das provas. “As medalhas foram de extrema importância, mas o mais importante foi ter conhecido em Malaga verdadeiros campeões, campeões da vida, isso é o mais importante que eu trouxe”, se orgulha.

Em agosto de 2018, Rodrigo participou novamente da edição do Transplant Games of America, em Salt Lake City, nos Estados Unidos. Dessa vez, o atleta voltou pra casa com cinco medalhas de ouro na natação e dois novos recordes americanos para transplantados. A competição foi uma seletiva norte-americana para a participação dos jogos mundiais em 2019, na Inglaterra. “Nosso sonho é levar para o mundial 20 atletas brasileiros transplantados”, declara.

O transplante de medula óssea na vida do Rodrigo foi mais do que um protocolo para combater um câncer. Mas foi através do transplante que o bancário percebeu que ainda tinha muito o que viver. “Graças ao transplante de medula óssea, eu realizei um sonho de criança”, afirma.

Mas nenhuma dessas vitórias seria possível se não existissem os doadores. Uma única doação de sangue, por exemplo, pode salvar até quatro vidas. No caso de órgãos, um único doador pode mudar a vida de oito pessoas. E um doador compatível de medula óssea pode doar quantas vezes for necessário. Viu como decidir ser um doador faz toda a diferença?

Se você já decidiu ser um doador de órgãos, comunique a sua família e os seus amigos sobre esta decisão. Mas se você quiser começar a fazer o bem enquanto está vivo, procure um hemocentro mais perto da sua casa e faça o cadastro para ser um doador de medula óssea. Você pode ser a cura de alguém!

Gostou desta história? Então compartilhe esse post inspirador para que mais pessoas vejam que os obstáculos também são oportunidades!

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